BBB: Barramento, Borda e Buraco

 

BBB: Barramento, borda e buraco

Por Daniel Malagoli


O Big Brother Brasil não é apenas um reality show. É, sobretudo, um dispositivo simbólico que encena, em tempo real, aquilo que sustenta o laço social: o olhar, o desejo e o julgamento.

O que se vê ali não são apenas pessoas confinadas, mas sujeitos confrontados com a falta de garantias. No BBB, ninguém sabe exatamente qual é o seu lugar no desejo do Outro (o público). E é essa incerteza que organiza tudo: as alianças, as rivalidades, as performances. Cada participante, à sua maneira, tenta responder à pergunta fundamental da psicanálise: o que o Outro espera de mim?

É nesse ponto que aparece o barramento. Para Lacan, o sujeito é estruturalmente barrado ($), dividido pela linguagem. Não somos senhores de nós mesmos, somos atravessados pelo significante e dependentes do reconhecimento do Outro. No BBB, esse barramento se evidencia quando o sujeito descobre que não controla a própria imagem. Ele se vê dito, recortado e interpretado. Aquilo que ele pensa ser não coincide com aquilo que o Outro vê. E é nessa divisão que a angústia emerge.

O reality é, então, um palco narcísico: o sujeito se constitui a partir de uma imagem que tenta sustentar. Cada gesto é uma tentativa de preservar consistência, de evitar a queda. Mas o confinamento também revela a fragilidade dessa construção.

E aí que a borda se impõe. A casa funciona como uma borda simbólica e real. Ela delimita um dentro e um fora, mas também circunscreve algo mais fundamental: o real do sujeito. Para Lacan, a borda é o que contorna o impossível, aquilo que não pode ser plenamente simbolizado. No BBB, as regras, as paredes e as câmeras criam esse contorno. E, ao mesmo tempo, é justamente nesse limite que o sujeito se confronta com aquilo que escapa à sua imagem: seus excessos, suas falhas, seu desamparo.

O público, por sua vez, ocupa o lugar de um Outro contemporâneo. Um Outro que observa, julga, absorve e condena. Mas um Outro inconsistente, dividido, contraditório. O mesmo participante que é amado um dia pode ser eliminado no outro. Isso revela algo fundamental sobre o nosso tempo: o amor social é volátil, condicionado e dependente da manutenção de uma imagem ideal.

A convivência forçada escancara o impossível da relação humana. Não há harmonia plena. Há disputa por reconhecimento, por amor, por lugar. O que está em jogo não é apenas o prêmio final, mas algo muito mais primitivo: a necessidade de existir para o olhar do Outro.

Talvez seja por isso que o reality fascine tanto. Porque ele não mostra apenas os participantes. Ele nos mostra. Mostra o nosso desejo de assistir. Mostra o nosso prazer em julgar. Mostra a nossa identificação e o nosso ódio.

O BBB é um espelho desconfortável.

E como todo espelho, não revela apenas a imagem. Ele revela o buraco.

O buraco, essa falta estrutural que nos constitui. Aquilo que nenhuma imagem, nenhum amor e nenhum reconhecimento consegue saturar completamente. No BBB, o que se vê é justamente o esforço contínuo de tamponar esse vazio: com alianças, com performances, com amor do público.

Mas o buraco insiste.

E é dele que o sujeito é feito.


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