A ARTE COMO VIA DE ACESSO AO INCONSCIENTE - DANIEL MALAGOLI

 

Não é de hoje que vemos artistas, em diferentes épocas e linguagens, expondo seus sentimentos de forma intensa, quase visceral, sem medo de tocar em aspectos sombrios, íntimos ou contraditórios da existência. Poetas, pintores, bailarinos, cantores, e muitas outras classes de artistas trazem para suas obras sentimentos e afetos “a flor da pele”.



É só nos atentarmos a obra como “Pinturas negras” do pintor Francisco Goya, que mergulha no horror, no medo e na angústia humana; e através de uma paleta sombria cria uma atmosfera de escuridão e peso psicológico. Ou a obra “O grito”, retrato da própria crise de ansiedade, solidão e dor existencial de Edvard Munch. Também temos as obras de Frida Khalo, que transformava a própria dor física e emocional em imagens fortes, sangradas, íntimas. Ou Jean-Michel Basquiat que trazia em suas pinturas uma explosão de raiva, crítica social e poesia urbana.

Temos poetas como Sylvia Plath, que continha uma poesia atravessada por dor, desejo, morte e a própria feminilidade em conflito, ou Clarice Lispector, escrita feita quase de dentro da carne, expondo sensações e inquietações existenciais. Na área da música podemos ver cantoras como Amy Whinehouse, com letras confessionais e uma entrega vocal marcada por dor e vulnerabilidade, Billie Holiday, em que cada canção carregava uma melancolia profunda, marcada por suas experiências de vida, ou até Kurt Cobain, que transformava angústia e apatia em gritos distorcidos.

E como não mencionar Cazuza, lírico, cru e confessional, cantava sobre morte, amor e excesso sem censura. Suas letras de formas viscerais, nos remete muito ao que a psicanálise entende como o ato de dar forma simbólica ao que está recalcado ou mal elaborado no inconsciente.

Todos esses artistas, cada um em seu infinito particular, utilizaram da arte para expressar aquilo que muitas vezes não conseguiriam de forma natural, apesar que o natural aqui é algo subjetivo, e para um artista, a forma “natural” de acessar os seus afetos é através da arte.

 

A ARTE COMO FORMA DE ACESSAR AQUILO QUE ESCAPA

A psicanálise nos traz que o inconsciente se manifesta por lapsos, metáforas, imagens, sintomas; e é estruturado como linguagem. Voltando ao Cazuza, podemos perceber como ele utilizava a escrita para falar do que não cabia na fala cotidiana: a solidão, a morte, a sexualidade, marginalidade, fragilidade. Ao descrever, ele soltava os afetos de maneira quase automática, sem medo de se contradizer ou ser “exagerado”.

Freud já trazia em sua teoria que a arte pode ser entendida como forma de sublimação, as pulsões e as angústias transformadas em algo culturalmente compartilhável. O artista pega o excesso pulsional (amor, tesão, desespero, raiva) e o transpõe em suas obras, permitindo que outros também se reconheçam nessa dor ou nesse prazer. A arte, nesse sentido, se torna uma descarga simbólica: em vez de ficar preso no corpo como sintoma, vira poesia, música, pintura ou dança.

Para Lacan, a verdade do sujeito está naquilo que escapa. Voltando ao Cazuza, em suas letras, há sempre uma tensão entre vida e morte, prazer e autodestruição. Ele deixava vir à tona o real – aquilo que não se simboliza completamente, mas aparece em imagens fortes, paradoxos e exageros poéticos. Suas letras servindo como uma espécie de escrita do gozo: não só comunicar ideias, mas expor um excesso que transborda.

 

O CORPO COMO LINGUAGEM DO INCONSCIENTE

Pina Bausch foi uma coreógrafa alemã, e sua obra é extremamente fértil para uma leitura psicanalítica. Sua dança-teatro não buscou apenas a forma estética, mas expôs o corpo como lugar de afetos, traumas e desejos, tocando diretamente o inconsciente.

Freud já dizia que o “ego é antes de tudo um ego corporal”, e em Pina, o corpo não é neutro: é corpo atravessado por história, desejo, dor e repetição. Seus bailarinos não executam apenas passos, mas revelam sintomas corporais: tremores, quedas, gestos repetitivos e até comportamentos automáticos que remetem a própria repetição do inconsciente.

Essa repetição exaustiva de gestos, um dos traços mais marcantes de sua obra, pode ser lido à luz do conceito de pulsão de morte: a compulsão à repetição como retorno ao traumático, tentativa de dominar aquilo que escapa. Os dançarinos repetem até o limite do corpo, revelando tanto o prazer quanto o sofrimento da insistência, remetendo ao gozo lacaniano, que é aquilo que vai além do prazer, um excesso. O sujeito insiste em algo que, ao mesmo tempo que causa sofrimento, traz também uma estranha satisfação.

As obras de Pina transitam constantemente entre amor e violência, erotismo e destruição. Corpos que se tocam com ternura, mas logo se empurram ou se agridem. Relações de poder, jogos de sedução, medo do abandono; tudo isso se articulando com a tensão freudiana entre Eros (vida) e Thanatos (morte).

Nos ensaios, Pina costumava perguntar a seus bailarinos sobre suas histórias pessoais e, a partir delas, construir a cena. Esse dispositivo se aproxima do discurso analítico: o sujeito fala, associa, e dessa fala emergem significantes que se encarnam no corpo. O palco torna-se então, um espaço de transferência coletiva, onde cada gesto carrega marcas subjetivas.

 

A ESTRUTURA DA CANÇÃO COMO SINTOMA

“Amou daquela vez como se fosse a última”.

Chico Buarque inicia sua canção “Construção” enfatizando que vida e morte estão entrelaçadas: o sujeito busca o prazer, um encontro amoroso, mas com a possibilidade do fim. Esse amor já contaminado por essa sombra.

Pensando em uma perspectiva lacaniana, o amor não é só um encontro de dois, mas também uma forma de tentar “tampar” a falta estrutural do sujeito. O excesso do amor “como se fosse a última vez” aponta para o campo do gozo: ultrapassar a medida, colocar toda a intensidade num ato que pode tanto exaltar a vida quanto destruí-la. É como se o sujeito nesse amor, buscasse um absoluto, um “todo” impossível, sabendo (inconscientemente) que esse absoluto não existe.

Na sequência da canção, cada ação do operário é descrita “como se fosse a última”: amar, comer, beber, trabalhar. Isso ecoa a compulsão à repetição freudiana: viver sempre em um ciclo de últimas vezes, onde cada gesto carrega um peso exagerado. Ao mesmo tempo, denuncia uma vida alienada: o sujeito só encontra intensidade ao fantasiar o fim, não no ato em si.

O sujeito, na canção “Construção” de Chico Buarque, se oferece aa um sistema, sacrificando-se, sem saber muito bem por quê. Chico, ao repetir a cena em diferentes variações, faz o ouvinte sentir no próprio corpo a experiência do trauma: uma morte que não se simboliza por inteiro e, por isso, retorna.

 

CONCLUSÃO

Podemos concluir então que, esses artistas, cada um em sua linguagem, transformam a vida em arte de maneira intensa, sem filtros. Através de suas obras acessam o real, aquilo que escapa, conseguem driblar os entraves da mente e acessar seu inconsciente, transformando o inaceitável e o que lhe faz sofrer em algo consumível para seu ser, transformam o “feio” em algo belo, louvável, admirável; encontrando assim uma forma de conseguir continuar vivendo em um mundo que, para eles, quase é insuportável sem a arte para descarregar seus afetos.

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