ÉTICA NO SETTING NO MUNDO DIGITAL - Marcus Vinícius R. Gonçalves

ÉTICA NO SETTING PSICANALÍTICO NO MUNDO DIGITAL

Nos últimos anos, a prática psicanalítica tem sido atravessada por transformações significativas, especialmente diante da crescente virtualização da vida. O chamado setting — isto é, o enquadre que sustenta a experiência analítica — deixou de se restringir ao consultório físico e passou a abranger também espaços digitais, como atendimentos por telefone, videoconferência e outras plataformas online.

O ENQUADRE E SUA FUNÇÃO

Tradicionalmente, o setting não é apenas um lugar físico, mas o conjunto de condições que tornam possível a experiência analítica: horário, frequência, pagamento, sigilo e a própria presença do analista. Como destaca a literatura psicanalítica, o enquadre é a moldura que permite que o processo se desenvolva, oferecendo previsibilidade e sustentação ao sujeito.

No ambiente digital, essa moldura se desloca, mas não desaparece. A tela ou a chamada de voz se tornam parte do espaço analítico. A ética, então, exige que o analista reconheça essas novas formas sem perder de vista os princípios fundamentais da prática: escuta, neutralidade e confidencialidade.

ÉTICA: Muito Além das Regras

É importante frisar que, em psicanálise, ética não se confunde com moral ou com normas de conduta exteriores. Não se trata de “fazer o certo” no sentido comum, mas de sustentar a posição analítica: não impor ideais, não ceder à sugestão, não transformar o espaço em aconselhamento.

No mundo digital, essa ética se coloca em novos desafios: como lidar com interrupções tecnológicas? Como assegurar a confidencialidade em plataformas que coletam dados? Como manejar o silêncio quando a conexão falha? Esses impasses, longe de invalidar a análise, exigem do analista uma posição ainda mais rigorosa no que diz respeito ao seu lugar na relação com o analisando.

O TELEFONE, A TELA E A PALAVRA

Bruce Fink destaca que a análise por telefone mostra que o essencial não é o olhar, mas a palavra — e sobretudo a escuta. O digital, nesse sentido, evidencia algo já presente na clínica: o que opera não é a troca de imagens, mas o trabalho com o inconsciente pela via da linguagem.

Contudo, a presença física não é indiferente; ela participa da experiência subjetiva do analisando. Por isso, a clínica digital não deve ser pensada como equivalente simples ao encontro presencial, mas como um deslocamento possível, que carrega ganhos e perdas.

DESAFIOS E POSSIBILIDADES

Entre os desafios, destacam-se:

Confidencialidade: assegurar que o espaço virtual seja seguro e preservado de terceiros.

Limites do enquadre: evitar a banalização do setting digital como se fosse apenas uma conversa online.

Efeitos subjetivos da distância: compreender como o analisando se posiciona diante da ausência física do analista.

Mas também existem possibilidades: maior acessibilidade, continuidade de processos em situações adversas (como pandemias ou deslocamentos geográficos) e a abertura para novos modos de escuta.

Conclusão

A ética psicanalítica no mundo digital não significa reproduzir de maneira rígida o setting tradicional, nem tampouco relativizá-lo até perder sua função. Significa sustentar a posição analítica em meio a novas condições, mantendo o compromisso com o inconsciente e com a singularidade do sujeito.

Em última instância, como lembram os textos de referência, trata-se de não perder de vista que o centro da experiência analítica é a palavra do analisando, e que a ética está em escutá-la para além da superfície, mesmo quando atravessada pela mediação digital.

Autor: Vinícius Gonçalves (Sr.Gonçalves)

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